«Lavrar o Mar» termina com marionetas que «morrem» na praia e fogo no Castelo de Aljezur

O momento final do festival de artes performativas «Lavrar o Mar», nos dias 26 a 28 de maio, promete ser inesquecível.

Com o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV) a negar autorização para a grande instalação de fogo prevista para a praia da Monte Clérico, a companhia francesa CARABOSSE está agora a «fazer um plano muito detalhado» para o Castelo de Alejzur. No sábado, 27 de maio, às 21 horas, cerca de 2000 potes de fogo serão acessos ao mesmo tempo. Depois «as pessoas serão convidadas a subir por um caminho iluminado à luz de velas que se vão intensificando até ao interior», onde haverá música ao vivo e um ambiente visual e sonoro de grande impacto. De entrada livre e aberta a todos, este será, sem dúvida, um ponto alto da segunda e última parte do festival de artes performativas «Lavrar o Mar», que decorre em Aljezur e Monchique nos últimos dois fins de semana de maio. O diretor artístico do evento, Giacomo Scalisi e a coreógrafa Madalena Victorino, explicam o que mais vai acontecer. Em Monchique, o espaço da antiga serração, recentemente adquirido pela Câmara Municipal vai servir para acolher os espetáculos «La Cosa» às 19h00 e «Petit Théâtre de Gestes» (às 21h30) nos dias 26 a 28 de maio.

O primeiro é «um espetáculo de circo e dança, da companhia belga Claudio Stellato, que trabalha com madeira». Na opinião do responsável pelo cartaz, é uma forma de celebrar a vida do antigo dono da serração. «A biografia do sr. José Júlio é de uma beleza incrível e quero mesmo pensar o que se poderá fazer com a sua história. É um homem com a 4º classe que criou um império», entre a ascensão e queda «e ficou bem, sem dívidas, mas com uma saudade enorme. Comprou máquinas na Alemanha e na Itália, nos anos 1960, era uma coisa que não se fazia em Portugal», refere Giacomo Scalisi, que tem procurado sempre aprofundar a relação entre a terra, os lugares, as gentes e o cartaz do festival.

Já «Petit Théâtre de Gestes» da companhia Bêtts De Foire, «está a dar a volta ao mundo. Passa-se dentro de uma tenda para 140 pessoas. É um espetáculo de novo circo, dança, teatro de objetos, e marionetas, de uma sensibilidade e visão muito interessantes» para um público familiar.

Por outro lado, e apenas para os adultos, será o solo «Soleil Couchant», na sexta-feira e no sábado (26 e 27), na praia da Arrifana, às 20h30. «Vai acontecer ao pôr-do-sol, para um pequeno grupo de 50 pessoas. É um senhor já com uma certa idade, que através da marioneta fala da sua condição de idoso, da sua escolha em acabar a vida na praia. É muito triste e muito bonito ao mesmo tempo», explica. «O marionetista tem um técnica fantástica. Às vezes é difícil perceber quem é a marioneta e quem é o homem. As suas caras, as feições, o corpo, fundem-se. É um trabalho maravilhoso», acrescenta Madalena Victorino.

«Na serra de Odemira, onde tenho trabalhado nos últimos anos, percebi que a taxa de suicídios é bastante alta nas pessoas mais velhas. Elas têm um sentido muito prático da vida, não querem ser um peso para os mais novos. Sentem que a sua vida foi vivida e que é o momento de parar. Como não há um grande peso da ideia mais católica de respeitar todo esse ciclo da vida como obra de Deus, são elas que põem mãos à obra e decidem sobre a sua própria vida. Acho este gesto muito corajoso», comenta Madalena Victorino. «A questão é que sentem que os mais novos não estão disponíveis para a sua velhice. Este festival está sob o signo do fogo, que também se apaga. O espetáculo aborda a questão da energia humana que se extingue. Às vezes é preciso pensar na sua erosão».

O programa não esquece contudo, os mais pequenos. A pensar nas crianças, o festival convocou a companhia belga Tof Théatre. Traz um espetáculo de marionetas, de apenas 20 intensos minutos, chamado «Dans L’Atelier». Será apresentado dias 26 e 27 em Aljezur, e dia 28 na Sala de Estudos da Junta de Freguesia de Monchique.

Outra dificuldade da equipa de produção foi conseguir reunir o elenco para a performance «Gatilho». «Não foi fácil. Em Aljezur, como não há escola secundária, os jovens entre os 16 e os 19 anos partem muito cedo para Lagos. E os de Monchique também, para Portimão. Quando regressam a casa estão muito cansados», diz Madalena Victorino. Ainda assim «encontrámos um belo grupo» que vai participar para na apresentação dia 26 de maio, às 21h30, na Escola EB 2+3 de Aljezur. Ainda sobre a posição do PNSACV, a equipa de produção ainda considerou «uma alternativa na parte urbana da Arrifana, mas não era seguro segundo os técnicos da companhia francesa. Percebo a posição do parque, no entanto deveria fazer uma escolha qualitativa e autorizar um evento como este, que tem uma forte componente cultural e turística», conclui Giacomo Scalisi.Para todos os esclarecimentos, estão abertas as portas da casa «Lavrar o Mar» em pleno centro histórico de Aljezur (Rua João Dias Mendes).Estão também disponíveis os contactos telefónicos 913 943 034; 282 144 379 e a bilheteira on-line em https://lavraromar.bol.pt/
O projeto «Lavrar o Mar» conta com o financiamento do programa «365 Algarve».

Categorias
Cultura


Relacionado com: