Íris, a sílaba tónica do rock português

Após um interregno de seis anos, os Íris teimam em não deixar morrer o rock. Alheios a modas e à ditadura das playlists, a banda liderada pelo carismático cantor Domingos Caetano, lança esta semana o oitavo disco intitulado «Ao acaso».

Sem ensaios, fruto do momento e da forte cumplicidade que continua a unir esta banda. Assim se descreve o novo disco «Ao Acaso», gravado durante o inverno passado no estúdio do primeiro andar do Cinema Topázio, na Fuseta.

Embalados pela suave luz característica da Ria Formosa, «aconteceu tudo um pouco ao acaso e daí o nome. Foi jogar as mãos ao piano, tocar uns acordes, pegar numa letra de entre as várias que tínhamos aí coladas na parede, começar a cantar e as músicas saíram. Nada foi preparado», conta Domingos Caetano.

«As músicas fluíram de uma maneira simples. Só depois é que fizemos os arranjos e a pré-produção» a cargo do lendário produtor britânico Niel Kay, que curiosamente, esteve também envolvido na produção do disco de estreia da banda, em 1994.

Relativamente à sonoridade «é rock, com algumas baladas. Para mim, as músicas não têm de ter uma mensagem. As letras são um jogo para usar as palavras de maneira bonita. Cantar em português é difícil por causa das sílabas tónicas. Tento sempre colocá-las no tempo forte» de cada tema.

Mas há exceções no conteúdo. «Temos uma versão venenosa do Grândola Vila Morena» de Zeca Afonso, cantor que aliás tinha uma forte relação com a Fuseta.

«É sobre a situação que estamos a atravessar, em que já ninguém tem espírito de luta e de revolta. Repare que metem-nos o dedo no bolso e ninguém reclama». A versão começa com riffs pesados de guitarra distorcida e termina com um coro alentejano.

Desta vez não há «algarviada» no novo disco, o que é passível de crítica por parte dos fãs, como o cantor e líder da banda admite. De fora do alinhamento fica «um tema da Shakira. Contactámos diretamente com ela, mas não nos autorizou a gravá-lo. Pior ainda: mandou uma carta para todas as sociedades de autores da Europa a proibir qualquer versão daquela música», lamenta.

Há ainda uma versão «Nuclear, Não Obrigado», de Lena d’Água e a Banda Atlântida, e também de um tema de Stephen Stills, sugerido e arranjado por Niel Kay.

«Atenção que cada vez que nós fazemos uma versão, os direitos são sempre pagos ao verdadeiro autor. Por exemplo, o tema do António Variações que gravámos no primeiro disco, os direitos de autor revertem para a família», assegura.

O guitarrista Alexandre Ponte acompanha a vida da banda desde a adolescência. Hoje, aos 21 anos, depois de tirar o curso de guitarra clássica no conservatório e de «ter evoluído imenso», como Domingos confirmou ao «barlavento», já assina e canta um dos temas de «Ao acaso».

«Ele gostava de acompanhar a malta. Vinha sempre com a gente e muitas vezes dava-lhe a guitarra em cima do palco. O guitarrista Rui Machado teve de sair por motivos profissionais, e como Alexandre sabia todas as músicas, desenrascou-se tão bem acabou por ficar», conta Domingos.

A banda existe desde 1979, mas só se tornou famosa com a edição de «Vão Dar Banhó Cão», em 1995. Curiosamente, esta é o único grupo que trouxe para o Algarve dois discos de ouro e dois discos de prata.

Um projeto futuro é o lançamento de um vinil, que nunca aconteceu. Por outro lado, os Íris querem fazer um novo espetáculo ao vivo, só com as baladas do repertório em arranjos de orquestra. O objetivo é filmar um DVD.

E como vêem a música hoje? «Bem a música vive por fases, em que toda a gente faz coisas parecidas. Agora é as quizombas, depois há de ser outra coisa qualquer. Há tempos apareceu aquela onda da música brasileira foleira, e assim vamos nós. Não temos uma identidade musical. Os Íris mantêm esta linha. O rock não está na moda. Ninguém lhe liga nenhuma. Mas quando tocamos ao vivo toda a gente gosta. Não se percebe porque é que as rádios só alimentam determinadas pessoas», conclui.

«Ao acaso» foi apresentado ao vivo em Faro, na segunda-feira, 7 de setembro, no âmbito do dia do município.

Categorias
Cultura


Relacionado com: