Faro mostra lucernas romanas recolhidas por Estácio da Veiga

A nova exposição do Museu Municipal de Faro tem por título «A lucerna através do tempo. Iluminando Ossónoba Romana» e inaugura no sábado, 27 de janeiro, às 17 horas. Mostra um conjunto, na maioria encontrado na Horta do Pinto (junto à Ermida de São Luís), uma zona desde há muitos anos urbanizada, no centro da capital algarvia.

«Os primeiros achados datam do século XIX. Mais tarde, no anos 50 do século XX são feitos trabalhos de arruamentos e urbanismo e volta-se a descobrir novos artefactos. Portanto, a maior parte é proveniente daquela zona. A coleção de lucernas da Horta do Pinto é considerada uma referência, porque permite perceber a evolução formal e artística das lucernas, desde o II século antes de Cristo até ao século XI da nossa era», explica Marco Lopes, historiador e diretor do Museu Municipal de Faro.

«Abrange o período Republicano do Império Romano até à fase de declínio. E permite-nos mostrar, de forma cronológica, a evolução dos gostos estéticos e as mudanças sociais e ideológicas. As lucernas mostram desde cenas geométricas, de fauna e de flora que são relativamente comuns, até às cenas eróticas e, já na fase final, os símbolos paleocristãos. E esta é uma novidade que queremos evidenciar.
A dada altura, a lucerna não é apenas um mero objeto utilitário de iluminação, mas é também um objeto propagandístico de uma nova religião que estava a aparecer e a ser adotada pela sociedade. Por exemplo, começam a mostrar um cordeiro que simboliza Cristo, assim como outros motivos iniciais de uma religião que começa a dar os primeiros passos. Com isso, ganha também um valor sagrado», descreve.

Marco Lopes sublinha que alguns destes artefactos nunca foram mostrados ao público. «Estavam nas reservas do Museu Nacional de Arqueologia. Aliás, tem sido uma das nossas apostas, fazer parcerias com objetos que são da história da cidade e do concelho e que nunca foram apresentados», diz. A estas juntam-se outras «que estavam expostas na sala do Mosaico do deus Oceano, mas não tinham protagonismo. Os motivos são conhecidos e comuns aos encontrados noutros sítios arqueológicos do país. Há as lucernas de Aljustrel, ou mineiras porque foram encontradas nesses contextos e não existem em mais lado nenhuma. Mas há uma razão. Ossónoba era um porto, uma cidade comercial e importava-as do norte de África e de Itália. Não eram feitas cá. Não há registo ou conhecimento de olarias de fabrico de lucernas aqui no Algarve».

A ideia de juntar cerca de 40 lucernas romanas foi uma proposta de um jovem arqueólogo, Carlos Samuel Pereira, investigador no Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, que também é o comissário da exposição. «É um especialista e tem dedicado o seus estudos e fez um trabalho exaustivo sobre as lucernas no Algarve». E estes artefactos ainda atraem a curiosidade? «Há sempre alguma reserva no interesse às exposições de arqueologia, que são muito formais, sem grande interesse, parece que os objetos não falam connosco. Enfim, não é a pintura barroca que tivemos aqui patente. Desta vez, vamos tentar desconstruir essa ideia, com uma museologia simples, textos objetivos e um pequeno filme para mostrar como é que se fazia e funcionava uma lucerna. Vamos tentar contornar o lado pesado da arqueologia e valorizar o lado mais didático e pedagógico, mostrando a morfologia e o funcionamento das peças».

Ainda em relação ao material que vem de Lisboa, «há uma particularidade interessante. O inventário do Museu Nacional de Arqueologia é muito claro. A maioria das lucernas foi recolhida pelo próprio Estácio da Veiga, em escavações em Milreu, na zona do Guelhim. Em termos geográficos, faz sentido, vieram do espaço rural de Óssonoba». Já as do espólio farense «foi o dono da Horta do Pinto que as deu a a Monsenhor Boto», clérigo que fundou o Museu Arqueológico Lapidar Infante D. Henrique (inaugurado em 4 de março de 1894) e que se dedicou ao estudo da arqueologia na região. Na inauguração, Carlos Samuel Pereira fará uma visita guiada à exposição, que ficará patente no Museu Municipal de Faro até 6 de maio.

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