Faro já tem espaço para lembrar nascimento da imprensa em Portugal

Projeto museológico não ficará estático pois D. Manuel Quintas, Bispo do Algarve, pretende alargar a experiência do visitante abrindo acesso a mais dois tesouros patrimoniais da Diocese e da cidade.
Paulo Neves, D. Manuel Quintas, Rogério Bacalhau, Manuel Célio Conceição e Guilherme d'Oliveira Martins.

Foi uma tarde que ficará na memória de todos os que entraram pela primeira vez na antiga capela do Paço Episcopal, no sábado, 3 de novembro, para a inauguração da Exposição para a Difusão do Conhecimento – Núcleo Histórico da Imprensa de Gutenberg e do Pentateuco de Faro.

O espaço museológico nasceu com o objetivo de assinalar a impressão do primeiro livro em Portugal, nas oficinas do tipógrafo judaico Samuel Gacon, em 1487. Passados 531 anos, a efeméride está assinalada de forma palpável, segundo fez questão de sublinhar Guilherme d’Oliveira Martins, o convidado de honra da ocasião. «É essencial para a cidade de Faro e para o país, pois estamos a falar das origens da imprensa em Portugal, que não surgem por acaso no Algarve. Aliás, espero que num futuro próximo chamemos mais uma vez a atenção para a extraordinária riqueza cultural que esta região tem, e que decorre do facto de ser uma encruzilhada de influências diversas», considerou o atual administrador da Fundação Calouste Gulbenkian ao «barlavento».

Guilherme d’Oliveira Martins.

«O Algarve deve aproveitar mais, nos próximos tempos, essa riqueza cultural. Não podemos esquecer que é repositório de uma das escritas mais antigas que ainda está por decifrar, a escrita do Sudoeste. E é com especial orgulho, que eu, tendo sido coordenador em Estrasburgo da Convenção do Conselho da Europa sobre o valor do património cultural na sociedade contemporânea, a vi assinada aqui em Faro», a 27 de outubro de 2005, tendo entrado em vigor a 11 de julho de 2011. Questionado sobre a intenção de Faro se assumir como Capital Europeia da Cultura em 2027, o ex-ministro considerou a ambição «perfeitamente possível. É um trabalho que terá de ser feito com muito rigor e com muita determinação. Eu julgo que está ao alcance de todos os algarvios e de todos os portugueses reconhecer a importância da cultura do Algarve nessa oportunidade».

Por enquanto, o novo espaço arranca com um espólio limitado, cedido pela Fundação Portuguesa das Comunicações, mas, em breve, poderá ser alargado e enriquecido, até porque nas imediações há outros motivos de interesse que poderão vir a ser interligados entre si, segundo anunciou D. Manuel Quintas, Bispo do Algarve.

«É nosso propósito abrir ao público o espaço de azulejaria» do salão nobre do Paço Episcopal, «em colaboração com o cabido da Sé e prosseguir o aprofundamento do projeto de recuperação da zona onde esteve instalada a tipografia União, bem como o seu recheio tipográfico, em vista a ulterior abertura ao público, enquanto futuro Museu da Imprensa», disse o prelado.

A tipografia, instalada em 1909 pela Diocese do Algarve, funcionou num edifício contíguo e não será difícil abrir um corredor de ligação. Além do parque gráfico original e de todos apetrechos que marcaram uma época, ainda guarda um espólio documental, sobretudo ligado ao jornal «Folha de Domingo», e, em última análise, à história da imprensa regional algarvia.

Mais fácil será abrir a porta situada na nave superior da antiga capela dos bispos algarvios, que dá acesso direto ao salão nobre do Paço Episcopal, até agora reservado e pouco conhecido do público. No interior, há um conjunto de azulejos do século XVIII, de estilo barroco e rococó, algumas esculturas dos séculos XVII e XVIII e ainda um conjunto de telas que retratam alguns dos anteriores Bispos do Algarve, em excelente estado de conservação e de grande interesse patrimonial.

Durante a inauguração foi também apresentada a última edição da «Sul, Sol e Sal», a «História das Artes Gráficas e da Imprensa em Portugal», obra em quatro volumes que compila cerca de 20 anos de trabalho do investigador, designer e professor universitário portimonense José Pacheco. Pensada para esta ocasião, a obra mereceu uma detalhada dissertação e rasgados elogios por Manuel Cadafaz de Matos, da Academia Portuguesa da História.

Manuel Brito, responsável pela «Sul, Sol e Sal», explicou ao «barlavento» que «se trata de uma obra incontornável para os estudiosos e interessados nestas matérias e será um livro de referência, pelo menos para os próximos 50 anos».

O novo espaço expositivo, no número 16 da antiga Rua do Aljube, atual Rua do Município, surge da vontade de quatro parceiros. O principal é a Diocese do Algarve, que abre a antiga capela episcopal, a Fundação Portuguesa das Comunicações que cede, a título de empréstimo, uma parte do espólio, e por fim, a editora algarvia «Sul, Sol e Sal» e o Círculo Cultural Teixeira Gomes, que em conjunto asseguram a dinamização e abertura ao público.

Manuel Cadafaz de Matos, da Academia Portuguesa da História.

Por fim, D. Manuel Quintas registou «com agrado» o facto da parceria se ter concretizado «um projeto que se enquadra muito bem» naquele lugar, praticamente sem uso desde meados da década de 1960.

«E se é verdade, segundo dizem os entendidos, que o património religioso constitui cerca de 80 por cento do património cultural do nosso país, gostaríamos de aprofundar e de alargar ainda mais a missão, daqueles que como nós, têm em promover, valorizar e dar a conhecer o testemunho das nossas gentes algarvias, que de modo eloquente e sábio souberam conjugar a fé, a arte e a cultura num mosaico de manifestações plásticas às quais ninguém fica indiferente».

O investigador, designer e professor universitário portimonense José Pacheco.

A exposição poderá ser visitada de terça-feira a domingo das 10h00 às 17h30. A entrada individual custa 2,50 euros (2 euros para estudantes e seniores e grátis para crianças até aos 12 anos).

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