Casimiro Martins, o louletano vítima do holocausto nazi recordado no Cine-Teatro

«O Judeu que guardou portugueses no quarto de Van Gogh», peça que a Companhia de Teatro Contemporâneo estreou em março do ano passado em Loulé, vai ser apresentada no sábado, 4 de fevereiro, às 21h30, no Cine-Teatro Louletano. Em palco, a memória de um conterrâneo.
O louletano Casimiro Martins, vítima do holocausto nazi.

Desde que leu uma reportagem que mencionava a história de Casimiro Martins, um algarvio que partira para os Pirenéus franceses para ir trabalhar na construção civil com um irmão, acabando por morrer pouco depois no campo de concentração de Neuengamme, arredores de Hamburgo, que o assunto não deixou de interessar a Luísa Monteiro, investigadora, escritora, autora e encenadora da peça «O Judeu que guardou portugueses no quarto de Van Gogh».

«Têm sido descobertos novos filmes, mas há muita coisa para desenterrar. O que lamento, é que, em Portugal, nós não temos o culto memorialista. Não damos valor à história. Deveríamos fazê-lo, porque só perpetuando a memória é que evitamos alguns erros. Não nos podemos esquecer que morreram 300 portugueses nos campos de concentração», explica ao «barlavento».

Em sua opinião, o mais certo é esta estimativa, revelada num congresso que a escritora assistiu, peca por defeito. «Os alemães não sabiam português, nem sempre escreviam os nomes da forma correta. Nem sempre diziam que os presos eram de Portugal. Há todo um trabalho que está por fazer, pegar nestes livros dos mortos e verificar» novas pistas. «Nessa altura, Portugal estava deserto. Os homens iam tentar a vida noutras partes. Aqui ao lado, havia a Guerra Civil Espanhola. Restava a França. E iam a monte, para onde mais tarde se instalou o terror nazi».

«Tenho uma costela judia, isto também me diz algo. E só terminou há 72 anos. Foi ontem. Os nossos avós já eram pessoas crescidas quando aconteceu. A nossa indústria têxtil cresceu com o holocausto, fornecendo sacos e roupas. Nós ficamos com o ouro dos judeus. Ainda fizemos campos de concentração benéficos para alemães, em Cascais e Carcavelos, com sol e praia para os acolher depois da guerra. Tudo isto causa-me imensas dúvidas»…

«Não tanto em relação à nossa neutralidade» durante a Segunda Guerra Mundial, «não iria tanto pela via política, mas pelo lado humano. Esta peça justifica-se por isso mesmo. Lutar contra o demónio do esquecimento que é o pior deles todos».

A peça é um monólogo «porque permite um trabalho mais interior, mais de sussurro. Não quero que seja trágica. O que pretendi é que houvesse a voz de uma certa memória».

Apesar da angústia que este tema pressupõe, a abordagem estética da peça confere-lhe leveza, algum humor e o sentimento de resgate e homenagem a todos os portugueses que durante a Segunda Guerra Mundial se encontravam em França.

Um deles foi Casimiro Martins, de Loulé. O outro, Tomás Vieira, de Albufeira. o outro. Ambos foram elementos ativos da Resistência francesa. Juntos foram deportados para Dachau. Mais que o infortúnio, uniu-os as recordações do Algarve e o amor a um quadro assinado por Van Gogh…

Protagonista da peça evoca vítima de Albufeira

Um espaço exíguo com sacos de serapilheira e papéis velhos. Uma cadeira como a que se vê na pintura «O Quarto», de Van Gogh. Um homem ainda jovem, muito magro, usa um casacão velho e umas botas rotas.

A personagem é Tomás Vieira, um albufeirense da Guia. «É a memória do que restou dos portugueses. É ele quem narra as histórias dos outros, fantasmas que se cruzam em cena, e que vêm dar um pouco do seu relato. Para mim é uma experiência diferente por se tratar de alguém de Albufeira como eu, e por saber que houve pessoas daqui que morreram em Mauthausen», diz o jovem Luís Raphael, 23 anos, que interpreta o protagonista do monólogo.

A escritora e encenadora Luísa Monteiro com o ator Luís Raphael.

O nome de Tomás Vieira é uma entrada no livro da morte de Mauthausen, na Austria. «Está no museu que abriu recentemente, junto com alguns objetos pessoais, por exemplo, do Manuel João, que era de Loulé. Um relógio e uma missiva que seria para a mulher», diz Luísa Monteiro, que assina o texto da peça e a encenação.

«O Tomás Vieira faz-me lembrar o túmulo do soldado desconhecido que visitamos quando somos crianças e que nos parece um pouco absurdo – se é desconhecido, como é que lhe prestamos homenagem? Ao que tudo indica, era algarvio da freguesia da Guia, de uma família de pessoas ligadas ao comércio do figo que faleceram no estrangeiro, nesta altura», revela.

«Sendo de Albufeira estas pessoas estavam em Paris, e seriam ligadas a atividades culturais, à resistência francesa e judeus. Desde o tempo da inquisição que os Vieiras eram perseguidos por causa dos figueirais», considera.

Segundo a escritora, há «uma familiar que ainda está viva, mas não fala nestas questões e, portanto, não me foi possível obter uma fotografia deste Tomás», explica.

Mas o que a levou a tocar no holocausto? «Todas as monstruosidades que vemos, dizemos, bem, isto é humano. O humano também é assim. Compreendo esta situação a título individual, numa psicopatia forte. Mas neste caso foram milhares de pessoas que cometeram assassínios em massa».

«Em toda a minha busca de relatos e depoimentos, tropecei num de uma dona de casa alemã que, na altura, escrevia cartas a uma familiar que estava em Londres. Dizia-lhe que tinha muita pena do que estava a acontecer ao povo judeu, lamentava ver as famílias a serem desmembradas. Mas, dizia ela, tinham fartura dentro de casa, tantas coisas e tão bonitas, que era muito bem feito».

«A atitude desta senhora, doméstica, que expressa um pouco aquele sentimento ao nível das altas patentes, leva-me a crer que o ser humano é esta coisa muito doméstica. E muito perigosa, porque é excessivamente centrada no seu próprio umbigo», explica.

«Se há 60 anos, uma simples dona de casa, poderia falar assim, interrogo-me se não poderia pensar de igual forma hoje? E se realmente estamos assim tão mudados em termos racionais, espirituais, ao nível do nosso crescimento dito humano como animais que somos?»

O que reza a história

Tomás Vieira, carroceiro em Paris, nascido a 7 de março de 1890, em Albufeira, foi deportado para Dachau, a 9 de agosto de 1944, com outros oito portugueses, entre eles, os louletanos Casimiro Martins e Manuel João.

A 14 de setembro desse ano foi transferido para o comando Ebensee de Mauthausen, uma unidade subterrânea de produção de armamento, a que os nazis deram vários nomes de código (Kalk-Calcário ou Zement–Cimento, entre outros) com o objetivo de disfarçar a sua função: o extermínio. O albufeirense entrou a 16 de setembro e foi-lhe dado o número 99347.

Entre os campos satélite de Mauthausen, Ebensee era considerado um dos que tinha piores condições, e uma das taxas de morte mais elevadas. O registo do campo refere que Tomás Vieira morreu às 17h45, do dia 16 de novembro de 1944, em virtude de «broncopneumonia e problemas cardíacos». Testemunhos de outros judeus indicam foi objeto de experiências médicas, injetado com bactérias de tifo e cólera e vítima de espancamentos. Por este tipo de tratamento, tudo leva a crer que, além do seu nome judaico, também pertencia à resistência francesa.

Ensaio motivou peça de teatro

A encenadora Luísa Monteiro sempre quis saber mais sobre Terezin (Theresienstadt), onde muitos intelectuais foram presos pelos nazis. «Aqueles judeus que, durante o dia, andavam com pedras de 50 quilos para trás e para a frente, sujeitos às maiores atrocidades e sevícias, e à noite, às escondidas, sem luz, nem nada, compuseram óperas, fizeram peças de teatro, continuaram porque tinham crianças. E as crianças precisavam da cultura. As paredes estão cheias de trabalhos e o campo é hoje um museu. Eles perpetuaram a memória. O que os salvou foi a cultura», diz Luísa Monteiro referindo-se a Alice Herz-Sommer, a pianista mais antiga do mundo, que faleceu aos 108 anos. Foi este o ponto de partida para um ensaio de página e meia, há dois anos, que somado aos casos dos algarvios vítimas do holocausto se transformou na peça «O judeu que guardou portugueses no Quarto de Van Gogh». Na encenação, há um momento de música cubana que destoa no contexto. Luísa Monteiro, enquadra-a muito bem. «Foi a primeira música que Fidel Castro proibiu mal chegou ao poder. E, portanto, é uma vez mais a arte e a alegria a ser condicionada pelo poder político».

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