CAPa com cartaz de luxo em maio

Destacados criadores da dança contemporânea da Síria, Coreia do Sul, Brasil, Moçambique, Áustria e República Democrática do Congo vão passar por Faro ao longo deste mês.
José Laginha, diretor artístico do festival «encontros do DeVIR – cidades utópicas, cidades possíveis».

O Centro de Artes Perfomativas do Algarve (CAPa), em Faro, vai acolher durante o mês de maio, a segunda parte do festival «encontros do DeVIR – cidades utópicas, cidades possíveis». Depois das apresentações de encomendas a criadores nacionais em quatro cidades algarvias, sobre a descaracterização da região, a black box daquele espaço cultural assegura a continuidade do cartaz, desta vez com uma programação internacional na área da dança contemporânea.

O primeiro acontece já amanhã, sexta-feira, 5 de maio, a cargo do coreógrafo e bailarino sírio Mithkal Alzghair. «Displacement» é o título da peça que aborda questões como o deslocamento, a migração, a violência, os massacres, conflitos e revoluções no Médio Oriente.

«Displacement».

«Chamou-me a atenção o facto de ele estar presente em todos os festivais importantes da Europa. Mais do que uma programação regular, um festival faz-se da procura de situações que, de alguma forma sejam tensas, atuais, e transmitam informação ao público», justifica José Laginha, diretor artístico do festival «encontros do DeVIR».

«O objetivo do Mithkal Alzghair é divulgar ao mundo, o que é o conflito sírio, mas de forma positiva. Não é mostrá-lo como o vemos no telejornal. É alguém que quer falar do seu país, através de um corpo marcado por tensões, por questões fraturantes e por uma vontade de liberdade e de um futuro diferente do presente», explica ao «barlavento».

Sábado, 6 de maio, é dia da primeira de várias estreias nacionais: «Ja – Gentleman» pela Maholra Company da Coreia do Sul, país que a DeVIR já trouxe a Olhão, há alguns anos. Desta vez, «é um espetáculo que cruza dança tradicional com dança contemporânea. É uma fusão com muita qualidade, com música ao vivo, a partir de instrumentos muito particulares daquele país. É uma criação com um pendor identitário que olha para o que é a tradição, nos aspetos que fazem sentido trazer para o público de hoje», explica.

«Maholra Company» da Coreia do Sul.

Do universo da lusofonia, virá à capital algarvia o moçambicano Panaibra Gabriel Canda, na sexta-feira, 12 de maio, com «Tempo e Espaço: Os Solos da Marrabenta», de 2013. «Trata claramente uma questão de identidade. Canda fala da ideia de um corpo puro africano, que não existe, pois é um corpo português também. Fala sobre as ideias de nacionalismo, e também sobre o colonialismo. Esta peça tem uma guitarra elétrica tocada ao vivo, uma música muito forte, muito enérgica, muito explosiva, chamada Marrabenta, que significa rebentar», explica, tal com a guerra civil que assolou aquele território.

Panaibra Gabriel Canda.

Outra estreia nacional é a apresentação do indiano Abhilash Ningappa, agendada para 19 de maio. «Ele tem um centro de apoio à dança, parecido ao CAPa, em Bangalore. Durante uma visita que fiz integrado na rede europeia de casas da dança (EDN), a qual integramos, fomos diretamente para um festival. Mas revolvi procurar outras coisas naquele sítio, criadores alternativos. Foi assim que o descobri», recorda.

Ningappa convidou uma interprete portuguesa, Ana Jezabel da companhia Paulo Ribeiro. Vão estar juntos em residência artística em Lisboa e no Algarve «para perceber que traços identitários fortes têm estas duas culturas» e colocá-los em confronto.

Não é que seja um momento alto, mas será certamente um destaque, na noite de sábado, 20 de maio. A performance «Boca de ferro» é o único evento do cartaz marcado para as 22h30. José Laginha explica porquê: «é uma super estreia nacional, das coreógrafas e bailarinas Marcela Levi, brasileira e Lucía Russo, argentina». Uma boa parceria? «Sim. Desde há muitos anos que conheço o trabalho da Marcela Levi, pois foi interprete da Vera Mantero e já esteve cá no Algarve», numa das edições do extinto festival «a Sul», em 1998.

«Conheci Lucía Russo num festival de dança em Valparaíso, no Chile. Vi uma peça co-criada por ambas chamada Mordedores, que gostei muito e pensei em trazer-la cá. Acontece que tem muitos interpretes e seria muito cara. Então, elas sugeriram a última criação, que estreou em dezembro de 2016, em Barcelona. É muito recente, ninguém viu isto», sublinha.

«É um solo muito particular. Será apresentado mais tarde do que os restantes espetáculos, precisamente para que as pessoas percebam que é uma performance diferente, muitíssimo especial, exigente, forte e violenta. Parte de um tipo de música chamado tecnobrega, que se ouve no Pará, no norte do Brasil. Nos anos 1950, o contrabando trazia música caribenha a estas paragens, que os brasileiros usaram e recriaram. É uma música popular que se ouve nas ruas, emitida por altifalantes, que em português do Brasil tem o alcunha de boca de ferro, que aliás dá nome à peça. É uma interpretação ultra exigente, em que o interprete vai quase ao limite físico. É um espetáculo de grande impacto, para gente que tem vontade de apanhar um chapadão. Não venham cá à espera de ver o Brasil lantejoula, da Carmen Miranda com bananas na cabeça. Isto é sobre um outro Brasil, profundo, sério, duro, do qual que nós portugueses conhecemos pouco», avisa José Laginha.

Nú, exposto, de motosserra em punho, sem medo das lascas que espalha pelo palco, o austríaco Simon Mayer também promete não deixar o público indiferente, a 26 de maio, em mais uma estreia nacional. «Tem a particularidade de não ter nada e ter tudo a ver connosco. A peça que vai apresentar chama-se SunBengSitting, que remete para a ideia de alguém sentado à porta de casa a apanhar sol», ou seja, um certo imaginário do sul. «É uma peça um pouco autobiográfica. Este é um rapaz camponês que vai estudar para Viena e sente o preconceito. Aos olhos citadinos, ser do campo é uma coisa negativa. Esta criação tem música folclórica austríaca, tocada pelo próprio. É um espetáculo profundamente contemporâneo e atual, um confronto íntimo».

Simon Mayer.

Em Faro, a produção terá que arranjar dois toros de madeira de pinho frescos. Um adereço que promete dar dores de cabeça à equipa do CAPa. «A peça vai-se desenvolvendo em palco, à medida que ele constrói um banco de madeira»…

No antepenúltimo momento, no sábado, 27 de maio, o romeno Cosmin Manolescu, «vai mostrar o resultado de uma residência em Faro», nas ruas da cidade, a partir das 17h00.

Por fim, cabe ao bailarino, coreógrafo e encenador congolês Faustin Linyekula, 43 anos, fechar o cartaz, também no sábado, na black box do CAPa. Eleito artista da cidade de Lisboa no ano passado, «é um contador de histórias muito reais. Conheci o seu trabalho em 2007, quando tive a intenção de fazer um festival apenas com criadores africanos. Admiro-o muito porque criou em Kisangani, os Studios Kabako, um centro de apoio à criação na área das artes performativas, e porque desenvolve, em paralelo, um projeto social muitíssimo importante para a comunidade local, que tem por missão tornar potável a água do rio Congo».

 

«Le Cargo» de Faustin Linyekula/ Studios Kabako – Centre National de la Danse.

De sublinhar que os espetáculos têm início às 21h30 (à exceção de «Boca de ferro»). Há um pacote de 35 euros para o conjunto, e cada bilhete individual custa seis euros. Esta é uma iniciativa co-financiada pelo programa «365 Algarve». Para mais informações e reservas estão disponíveis os contactos 918 703 415 e [email protected]

José Laginha satisfeito com «a programação nacional deste festival»

A programação nacional da terceira edição do Festival «encontros do DeVIR – cidades utópicas, cidades possíveis» decorreu de 1 a 29 de abril em Faro, Loulé, Quarteira e São Brás de Alportel, com propostas de vários criadores nacionais, sobre a descaracterização do Algarve. O tema foi abordado por Pedro Penim e Rui Neto (teatro), Francisco Camacho e Vera Mantero (dança), Lídia Jorge e Afonso Cruz (literatura), entre muitos outros nomes.

«Fazer encomendas de criação tem tanto de desafiante, como de desconfortável. É um desafio difícil para quem cria sobre o nosso território, e desconfortável para nós que nos vimos retratados, e também para quem programa. Estamos até à última hora, sem conhecer o resultado», admite o diretor artístico José Laginha, em entrevista ao «barlavento». «Somos um dos poucos festivais do nosso país que aposta substancialmente no apoio à criação, desafiando criadores a pensar o nosso território. Os resultados poderão ser muito irregulares. Há criações que nunca mais serão apresentadas, e outras que têm percursos interessantíssimos.

É o caso de «os serrenhos do Caldeirão», que Vera Mantero criou em 2014. Tornou-se uma das obras mais relevantes e mais aclamadas desta criadora. Desde então, não tem parado de ser apresentada nos mais importantes festivais do mundo, dando a conhecer e falando sobre o Algarve interior. Desta edição posso dizer que o que mais me ressaltou foi a qualidade dos textos e da dramaturgia. São olhares muito pessoais sobre o nosso território onde, de uma forma integra os criadores cruzaram o seu trabalho, aquilo que são os seus percursos, com o que mais os impactou nestas quatro localidades».

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