As «Tochas» floridas de Vasco Célio debatidas em tertúlia

Exposição «Tochas» do fotógrafo algarvio Vasco Célio, patente no Museu Municipal de Faro, acolhe uma tertúlia com o autor e convidados, na sexta-feira, 2 de fevereiro.

São fotografias de homens vestidos a rigor, em traje de domingo, com arranjos de flores silvestres em riste. Mas esta não é uma exposição documental sobre a procissão das Tochas Floridas de São Brás de Alportel. É uma abordagem contemporânea. «Todas as questões culturais e antropológicas do Algarve me interessam cada vez mais, até porque não há História visual. Já conhecia esta festa desde criança. Em 2006 fiz um trabalho editorial para uma revista. É um daqueles momentos em que se sente o vazio de trazer um resultado avulso. Fiz as fotografias, mas não diziam nada. Pensei muito no que poderia fazer. Queria algo sustentável. Em 2007 voltei lá pelas mesmas razões e de repente fez-se luz: isolar os homens», conta Vasco Célio, ao «barlavento».

A ideia tomou forma em dois tempos distintos. Fez duas séries diferentes, com máquinas (backs) digitais de grande resolução. Em 2011 (30 milhões de pixeis) e em 2017 (80 milhões de pixeis) «Há uma evolução tecnológica natural. Na altura, quando projetei isto na minha cabeça, tive a ideia de montar um estúdio junto à igreja. As pessoas pensavam que era um negócio. Informei que era um trabalho artístico, sem fins comerciais» que resultou em mais de 400 retratos.

«Isto acontece uma vez por ano. É uma hora de intensidade absoluta. Não me podia dar ao luxo de algo correr mal. Antes da procissão começar, as pessoas entravam e, às vezes, as fotografias nem 30 segundos demoravam. É claro que toda a minha experiência, rotina e métodos de trabalho enquanto fotógrafo ajudaram. Na minha opinião, o sorriso tira espírito ao retrato. Mas é muito difícil num dia de festa como este pedir às pessoas para fazer um ar sério. Senão, ficavam apreensivas e afastavam-se», recorda.

A exposição também é desafiante para quem a visitar, com os retratos à escala (1,62 por 1,30 metros) a interpelar o visitante. «O olhar frontal não permite grande aproximação e só a partir de certa altura é que se consegue olhar para as flores. São imagens de confronto, à distância e à proximidade», explica o autor. E o lado humano? «Há uma pessoa que não é de São Brás, mas vive isto com tal intensidade que é como se fosse. É um exemplo de aceitação, do que é uma comunidade», diz.

«Tochas» faz parte do ciclo de arte contemporânea «Um Certo Ponto de Vista», um projeto da Artadentro que integra o programa «365 Algarve». Referindo-se à mostra anterior «Ilha» de Ana André, sobre a Praia de Faro, Vasco Célio encontra pontos de contacto. «O olhar artístico sobre uma coisa comum, sobre uma comunidade, fascina-me. Em Portugal, muitas vezes, não temos capacidade mental e intelectual de perceber que a história do mundo é feita através daquilo que os escritores, os artistas e os autores deixam para as próximas gerações verem. Temos um hiato enorme na nossa cultura à conta disso, de não se apoiar, não se tentar educar as pessoas a perceber quem somos», critica.

Na sexta-feira, 2 de fevereiro, às 19h00 haverá uma tertúlia em volta das «Tochas», com a participação de Emanuel Sancho, diretor do Museu do Traje, Marco Lopes, diretor do Museu Municipal de Faro, Vasco Vidigal, curador da exposição e Vasco Célio. O tema é perceber o «potencial contributo da arte contemporânea na compreensão das várias dimensões da sociedade».

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