Recordar a Inauguração do Ramal de Caminho de ferro de Silves a Portimão

O ramal do caminho de ferro de Silves a Portimão, ou melhor a Ferragudo/Parchal, foi inaugurado no dia 15 de Fevereiro de 1903. Só 19 anos depois seria inaugurada a ponte ferroviária sobre o Arade, a nova gare de Portimão e concluída a linha até Lagos.

Integrada nas comemorações dos 150 anos do caminho de ferro, a CP-Comboios de Portugal trouxe recentemente até ao Algarve, e à estação de Faro em particular, a Exposição Comemorativa 150 Anos do Caminho de Ferro em Portugal.

Assim, e associando-nos a esta temática, recordamos a inauguração do ramal de Silves a Portimão, ou melhor a Ferragudo/Parchal, ocorrida a 15 de Fevereiro de 1903. Para isso, socorremo-nos do que foi escrito no jornal «O Cruzeiro do Sul», Nº 5, edição de 19 de Fevereiro de 1903.

«Como estava anunciado, realizou-se no dia 15 do corrente a inauguração do novo ramal de Silves a Portimão. Para tal fim, da estação de Faro saiu às 7 horas da manhã um comboio extraordinário, conduzindo o Exmo Sr. Governador Civil João José da Silva Ferreira Neto, Deputados Drs. Agostinho Lúcio e Domingos Eusébio da Fonseca, autoridades, academia com o seu estandarte, filarmónica de Faro e inúmeros cavaleiros e senhoras», escrevia o jornal.

«Às 10 e 50 foi a chegada a Portimão, tendo havido breves paragens nas estações de Loulé, Albufeira, Tunes, Silves e Estômbar e havendo embarcado no trajecto mais 3 filarmónicas, uma na estação de Loulé, outra na de Silves e a terceira na de Estômbar. Nesta última, subiram ao ar inúmeras girândolas de foguetes e levantaram-se os mais calorosos vivas aos que haviam concorrido para a realização de tão importante melhoramento. O Governador Civil foi ali cumprimentado pela Câmara de Lagoa, Pároco e pessoas mais gradas de Estômbar e muito aclamado pela grande quantidade de povo, que se encontrava junto da estação».

«A chegada a Portimão, onde o comboio era esperado pela Câmara, mas sem estandarte por a estação ficar no concelho de Lagoa, autoridades civis e militares, imenso povo e uma filarmónica, o entusiasmo foi verdadeiramente delirante. O estralejar constante dos foguetes, as notas festivas das músicas, os delirantes vivas que a multidão se não cansava de soltar, a alegria que se lia em todos os rostos davam bem a perceber que o que ali se solenizava era um acontecimento ansiosamente esperado e que não só para os habitantes daquela importante vila, mas também para os de toda aquela região, era uma conquista e mais um passo andado no caminho do progresso».

«O Cruzeiro do Sul» prossegue: «Organizou-se em seguida o cortejo, que revestiu extraordinária imponência. A multidão era tanta que tomava por completo a distância de 1600 metros que vai da estação até Portimão e só com muita dificuldade se podia caminhar. O espectáculo tornou-se então perfeitamente feérico e maravilhoso, sendo impossível descrevê-lo. Aqueles que conhecem Portimão poderão imaginar o que seria essa marcha festiva e, podemos dizer, triunfal».

«Na vila, as janelas achavam-se ricamente engalanadas e cheias das mais formosas e gentis damas, que a mocidade académica não cessou de saudar. Depois de percorridas algumas ruas o cortejo dirigiu-se para a Câmara de Portimão afim de se realizar a sessão solene. Falaram o Sr. Presidente da Câmara a que respondeu o Sr. Governador Civil num primoroso e burilado discurso, o Sr. Jacinto Parreira, que fez um brilhante improviso, e o Sr. Jerónimo Negrão Buisel, sendo delirantemente aclamados os reis, José Luciano Castro, Hintze Ribeiro, Ministro das Obras Públicas, Justino Teixeira, Governador Civil, etc. Serviu-se em seguida uma taça de champanhe, falando depois o Rev. Nogueira e o professor do Liceu Luiz Mascarenhas».

Como era costume nessa época, «aos pobres foi servido no cais um bodo, que constou de pão, carne, feijão, arroz e 100 réis».

«Os festejos prolongaram-se pela noite fora, tendo sido esplêndidas as iluminações à veneziana que abrangeram todo o Aterro e o Cais».

«O comboio extraordinário regressou de Portimão às 2 e 30 e chegou a Faro às 6, tendo ficado no coração de todos indelevelmente gravadas as gratas impressões recebidas.»

A estação então inaugurada manteria a designação de Portimão até 30 de Julho de 1922, dia em que foi inaugurada a conclusão da linha até Lagos e com ela a ponte metálica sobre o rio Arade e a nova gare de Portimão, junto ao extremo norte daquela então vila.

A antiga gare de Portimão passou, tal como até hoje, a designar-se de Ferragudo.

*Investigador de história local e regional

Categorias
Arquivo


Relacionado com: